Acham que estão preparados, mas falham em executar, 5 armadilhas comuns em eleições
Empresas subestimam a complexidade de manter a operação estável durante eleições. Erros de comunicação, governança e postura pública são frequentes e evitáveis.

Uma empresa do setor de alimentos em São Paulo manteve a produção em ritmo normal nas semanas que antecederam as últimas eleições municipais. Acreditava estar preparada. No entanto, quando greves de caminhoneiros interromperam rodovias estaduais, o abastecimento de insumos parou por cinco dias. A cadeia de decisão, centralizada no CEO, demorou 72 horas para ativar um fornecedor alternativo.
O prejuízo foi menor do que poderia ser, mas expôs uma falha comum: a diferença entre planejar e executar em cenários políticos incertos. Preparação sem resiliência operacional é uma ilusão. Este artigo mostra cinco armadilhas que separam quem apenas simula prontidão de quem realmente responde com agilidade.
Subestimar o impacto operacional de eventos políticos locais
Empresas de médio porte no interior de Minas Gerais mantinham rotinas inalteradas durante o período eleitoral de 2020, mesmo com manifestações esporádicas em rodovias federais. Acreditavam que, como não eram alvos de protestos, não precisavam de plano de contingência. No entanto, bloqueios não programados em trechos estratégicos interromperam entregas por até quatro dias.
A cartilha do IBRAC sobre período eleitoral alerta que a instabilidade política não se limita a atos direcionados: efeitos colaterais como paralisações logísticas afetam cadeias produtivas inteiras. A resiliência empresarial exige mapear rotas alternativas, contratos com transportadoras secundárias e comunicação ágil com fornecedores.
Uma indústria de autopeças em Belo Horizonte, por exemplo, reduziu o risco de parada ao firmar acordos com dois centros de distribuição regionais, garantindo continuidade mesmo com interdições pontuais. A adaptação começa pela aceitação de que o cenário político não é um fator externo distante, mas um componente real da operação diária.
Ignorar a governança interna em tempos de incerteza
Uma empresa de tecnologia em Florianópolis manteve sua estrutura de decisão inalterada durante o ciclo eleitoral de 2022. O conselho não se reuniu por três meses, e o CEO adiou decisões sobre expansão por falta de clareza política. O problema não foi a cautela, mas a ausência de um comitê de crise com poder de decisão.
O documento da FIERGS sobre eleições reforça que a governança deve ser ativada, não suspensa, em períodos de instabilidade. Empresas resilientes definem previamente quem toma decisões, em que prazo e com quais critérios.
Um caso prático: uma rede de farmácias no Rio Grande do Sul criou um grupo tático com representantes de logística, jurídico e comunicação, com autorização para agir sem aprovação hierárquica em situações críticas. Isso evitou atrasos em decisões como suspensão temporária de lojas em áreas de conflito.
A agilidade não vem da descentralização total, mas da estruturação de canais de decisão com regras claras. Sem isso, até ações simples, como alterar rotas de entrega, viram gargalos burocráticos.

Comunicar mal ou se posicionar de forma inadequada
Uma marca de moda em Curitiba publicou nas redes sociais uma mensagem genérica sobre "respeito à democracia" durante o segundo turno. O post foi interpretado como endosso político por parte do público e gerou reações negativas. O erro foi duplo: comunicar sem estratégia e assumir uma postura que não estava alinhada ao posicionamento da empresa.
A cartilha do Tozzini Freire destaca que empresas devem evitar se posicionar em questões partidárias, mas não podem se omitir em valores como transparência e ética. Uma abordagem segura é reforçar o compromisso com a operação contínua, o respeito às leis e a proteção dos colaboradores.
Um supermercado em Campinas, por exemplo, usou seus canais para informar sobre horários de funcionamento ajustados e segurança nas lojas, sem entrar em debates políticos. A comunicação eficaz em cenários eleitorais não é sobre dizer algo, mas sobre dizer o que é relevante para o cliente e evitável para a imagem institucional.
Falhar em manter a continuidade operacional com fornecedores
Uma indústria de móveis em Manaus dependia de um único fornecedor de compensado em uma região com histórico de bloqueios durante eleições. Em 2020, uma interdição de 72 horas paralisou a produção. O plano de contingência existia no papel, mas não foi testado. O Instituto Ethos ressalta que a resiliência inclui a capacidade de resposta da cadeia de suprimentos.
Isso exige mais do que ter um fornecedor reserva: exige testes reais, contratos com cláusulas de força maior e canais de comunicação diretos. Uma empresa de embalagens em São José dos Campos, por exemplo, realiza simulações trimestrais com seus principais fornecedores, incluindo cenários de desabastecimento. Isso permitiu que, em 2022, ativassem um fornecedor secundário em menos de seis horas.
A adaptação contínua passa por verificar, não apenas presumir, que os parceiros estão prontos. Fornecedores com postura passiva em períodos eleitorais são um risco operacional direto.

Desprezar o treinamento e a preparação da equipe
Uma transportadora em Goiânia não realizou treinamentos específicos para motoristas antes das eleições de 2020. Quando bloqueios ocorreram, os condutores seguiram rotas tradicionais, ficando retidos por horas. A empresa não tinha um protocolo claro de comunicação com a frota. A cartilha da FIERGS menciona que a preparação da equipe é parte essencial da resiliência.
Isso inclui simulações de crise, canais de emergência e definição de responsabilidades. Uma empresa de logística em Porto Alegre, por exemplo, distribuiu um guia com mapas atualizados, contatos de apoio e procedimentos para situações de risco. Também realizou rodadas de perguntas com supervisores. O resultado foi uma resposta mais rápida e menos exposta a perigos.
A agilidade em crise depende da autonomia da equipe em campo. Quando cada colaborador sabe o que fazer, a empresa responde como um todo, não como um conjunto de decisões isoladas.
Uma empresa que se prepara para eleições não é aquela que evita riscos, mas a que sabe como reagir quando eles se concretizam. O teste real da resiliência não está no planejamento, mas na execução sob pressão. Escolha um ponto fraco comum, como comunicação ou fornecedores, e simule um cenário real com sua equipe.
O que parece teórico vira experiência, e a experiência é o melhor antídoto contra a falha em momentos decisivos.
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